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ATENÇÃO: a partir de agora os nomes dos filmes são links.
O início de tarde com vários filmes japoneses na região de início parecia promissor. As sinopses – algumas bem mal escritas, diga-se – do site da Mostra diminuíram meu ânimo, mas o início de um texto da ilustrada online me convenceu a sair correndo para ver Céu de Dezembro no Arteplex, às 12h30. Acabo de ver que é do Inácio Araújo. (Como sou sugestionável né? A Ilustrada parece parece ter um poder as decisões de que programa cultural fazer que transcendem cada indivíduo/leitor, está na consciência da classe média da Grande Pinheiros…) Mas, enfim, 12h30, cheguei uns minutinhos atrasado e ainda assim tinha fila, a luz estava acesa, as pipoquinhas que nem parecem banco do Unibanco nos disseram o que fazer e a sessão começou.
Vídeo, PB, nuvens. Não pude deixar de pensar no filme português de que falei no post anterior. Não é a única semelhança (poderia falar mais, mas vai ficar muito grande, o texto), mas é preciso deixar claro que estamos em outro registro: em lugar das fofas nuvens entre as quais voávamos, uma câmera estática apontada para o céu nublado, onde as nuvens se deformam e passam, suave e gravemente.
A mesma câmera estática nos revela a vida de um velho vidente, um jovem mafioso que tenta extorquí-lo, uma menina que tira fotos surpresa dos outros com uma polaroid enorme (para este tempo de máquinas fotográficas menores do que maços de cigarro), uma mãe solteira e sua filha de uns 7 anos (de quem o vidente toma conta às vezes e também a dona de de um restaurante) e um velho que ficou viúvo repentinamente e vai procurar o vidente primeiro para achar o dinheiro e a caderneta do banco, depois para encontrar sua filha.
As histórias não são efetivamente apresentadas, mas jogadas no nosso colo sem nenhum aviso, o que deixa o espectador um pouco desorientado no início. A câmera parada e a imagem chapada de vídeo (não acho que seja uma câmera superultramodena, não) tornam os tempos tempos mortos ainda mais mortos, pois apesar de não serem, sei lá, 10 segundos sem acontecer nada, como num filme iraniano, o deleite visual não preenche os poucos segundos de plano “a mais” deixados antes do corte. Bem diferente de um filme iraniano, para fechar a comparação. Os enquadramentos (ou planos, já que a câmera não se mexe), por sua vez, são tão rigorosos quanto a nacionalidade do filme sugere. Sem serem, de novo, um caminho para grande contemplação. Há algo de singelo no trato dos personagens, tanto quanto naquelas seqüências de cinema clásssico japonês, também estáticas, com pai e filha, ou quem fosse, tomando chá naquelas mesas baixinhas, com os ambientes limitados por parede de papel de arroz, algumas linhas e nenhuma curva em quadro (exceto pelas formas humanas, claro).
Aqui vou bem na linha do Inácio Araújo (não deveria ter lido o resto do texto – estou fraudando o princípio do blog): essa coisa singela e estática é um pouco quebrada por certa leveza, que ele compara a Wim Wenders, mas eu acho que é muito do extremo oriente e eu não sei explicar e me leva ao cinema sempre cheio de expectativa. Eu poderia comparar a um tempurá, mas vou poupar-vos disso…
É curioso que parece que eu adorei o filme, mas isso não aconteceu. Fiquei meio entediado e dei “regular”. Afinal, dentro de meu preconceito positivo pelos filmes de olhos puxados, faz falta uma câmera 35mm. Mas não vou ser taxativo quanto ao filme, pois noto que gosto mais agora do que ao sair da sessão.
Entre o filme e o texto, vi Pequena Miss Sunshine, que comento em seguida.
Escrito por Tiago Marconi às 17h55
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A verdade é que vi os Simpsons e só lembrei de escrever quando o flme já não estava fresco na cabeça. Não quis escrever sobre Tropa de Elite. E esqueci de escrever e recomendar O Grande Chefe. Mas enfim estréio o blog, comentando minha estréia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2007, o ramadã da cinefilia paulistana.
Estréia típica da mostra: saí para ver o filme do Pablo Trapero no Arteplex – as 4 salas dedicadas à Mostra lotadas. Pensa que é fácil tocar o Kaaba em Meca, com todos aqueles fiéis girando em volta? Assim é a Mostra. Pelo menos não fui pisoteado. Saí correndo temeroso até o Unibanco para arriscar um português, “um velho e uma criança, português, pode ser bonito, pode ser piegas”... Atrás das Nuvens, típico nome de filme da Mostra. Típico também é o dia em São Paulo, uns 20 graus, chuvinhas eventuais e vento. E a fila – a classe média culturalzinha paulistana paulistana além de gostar de cinema, adora uma fila!
Os créditos iniciais com efeitos de crop e nomes nas margens pretas me cheiraram a televisão. A musiquinha dramática, harmoniosa, com pianos sensíveis me cheiraram a roubada. Bem, vamos ao argumento: um menino de 10 anos lisboeta inteligente fica curioso em relação a seu passado, seu falecido pai, seu avô paterno, mas sua mãe põe-se nervosa ao ter que responder suas impertinentes perguntas de criança. Na iminência das férias, período em que sua mãe pensa em mandá-lo para um acampamento, o menino consegue a ajuda de um amigo para encobrir sua fuga em busca do avô, numa quinta (será aquilo uma quinta?) vinicultora no Além-Tejo. O avô, deslumbrado com a presença do neto que nunca vira, demora um pouco para avisar a mãe (tem umas peripécias que vou pular, tá?) e o menino passa uns bons dias lá. O grande lance do filme é um velho Citröen parado em cima de umas pedras, onde o senhor engenheiro entra e fica viajando pelo mundo e pelas nuvens sem sair do lugar.
Ele e o neto começam a viajar pelo tempo, pela história da família prematuramente desfalcada e pelo futuro que poderiam ter tido, com irmãos do menino Paulo, na casa enorme do avô. Entendemos gradativamente (com algum grau de previsibilidade das revelações do roteiro) que o pai morreu num acidente com o avô ao volante enquanto Paulo estava nascendo, em meio a mais uma discussão sobre o jovem querer ir embora para Lisboa em vez de tomar conta das vinhas. No final, claro, a mãe reconhece que não deveria ter apartado o menino do avô e que esse não teve culpa no acidente (a culpa foi de um cavalo que vemos nos sonhos perturbados do senhor engenheiro). Todo mundo feliz, no Citröen a 30 por hora rumo a Lisboa.
A atuação do menino é muito boa. A do avô também. A mãe... bem, a mãe é bonita. Os coadjuvantes estão bem. O argumento de família despedaçada, choque e posterior conciliação de gerações e tal, sinceramente, não me comove. O roteiro dá pistas demais e tudo dá certo demais (pode, em Portugal, um menino de 10 anos se meter num ônibus para outra região?). As locações são boas, gostei muito de ver o Além-Tejo. A direção de arte é bem feita (o carro é ótimo!).
O uso da música talvez mereça um parágrafo inteiro. Um pianinho e cordas nos acompanham em quase todas as seqüências em que o drama (no sentido de intersubjetividade, relações entre personagens, entre peronagens e objetos e ambientes) acontece. Não se pode nem culpar a TV por esse deslize cometido até em importantes obras neo-realistas e outros importantes filmes. Mas que, no meio daquela decupagem – caretinha e competente – essa música toda parecia uma novelinha mais sensível, isso lá parecia.
Mas o ponto realmente crítico do filme são as transições da realidade para a fantasia/magia, quando o avô e o menino estão no carro. A bem vinda facilidade para se criar efeitos digitais em qualquer computador um pouco mais potente traz consigo um risco para a arte da montagem, mètier que escolhi e exerço muito menos regularmente do que gostaria. Acompanhado por um som brilhante (como cem emissários do vento bem fininhos), uma luz digital com efeitos de flair e glow e sei lá mais o que incide em parte da cena e somos levados ao mundo da fantasia. Não estou aqui questionando a capacidade de o cinema viajar por caminhos mágicos, mas a teledramaturgia brasileira, que não acompanho, usa efeitos gráficos mais convincentes. A montagem rigorosa do filme (as seqüências de sonho do avô são boas, o acidente é bom) é invadida por um efeito videográfico tão indigente que acaba comprometida. E aí o filme perdeu de vez minha empatia. Quando vi que o plano final se aproximava – o carro na estrada, a grua subiiiinnndo – peguei minha garrafinha d’água e saí no primeiro crédito. Esqueci de votar, poupando-me da decisão entre “1) não gostei” e “2) regular”. Se o filme estiver na semana final, com as rebarbas da Mostra, não vá. Ou vá, mas esteja avisado!
E se prepare pro pianinho...
Escrito por Tiago Marconi às 21h05
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