Depois do Filme


Vão ver meus filmes!!!

Sexta-feira, 14/12, 20h no Centro Cineclubista de São Paulo (Rua Augusta, 1239): Coração de Tangerina (assistência de direção)

Sábado, 15/12, 15h30 na Cinemateca (Sala BNDES): Rua Javari (asistência de direção).

Domingo, 18h30, na Cinemateca (Sala BNDES): Outro (1ª assistência de direção e MONTAGEM!!!)
21h30, no Centro Cineclubista de São Paulo, Coração de Tangerina

O clipe Japoteca, pelo jeito, não passa mais. Quem viu, viu.

O Tangerina vai passar em uns lugares tipo Ribeirão Preto e Cidade Tiradentes, mas como meu público é bem burguesinho, basta informar essas sessões.

Escrito por Tiago Marconi às 13h30
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Ah, não!!! Crítica de curta???

Fazia tempo que eu não blogava por vários motivos: não fui mais ao cinema, andei muito ocupado e um pouco preguiçoso (afinal, vídeo também vale). Retomo o diário online analisando a sessão de abertura da Mostra do Audiovisual Paulista, que está bem mais chique, Cinemateca bombando, coquetelzinho e tudo mais. Não tem links nos nomes dos filmes porque o site da mostra é em flash e o endereço é sempre o mesmo: http://www.mostraaudiovisual.com.br/21/main.html .

Abrindo a sessão, Passenger, vídeo experimental de Kika Nicolela. Quem já teve a oportunidade de me ouvir desdenhando de videoarte sabe que não sou grande apreciador do gênero, mas – talvez por ser no começo da sessão – não me aborreci nem um pouco e – quem diria? – até me identifiquei. Um longo travelling pela janela de um ônibus (carro?) gotejada de chuva, naquela hora penumbrosa em que já não é dia e tampouco é noite. Tudo muito devagar. Não lembro da música. As luzes alaranjadas dos postes criam formas em nossa direção, flairs. Muito legal. E curto, o que é melhor!

Em seguida, Coração de Tangerina, de Juliana Psaros e Natasja Berzoini. Como estou nos créditos (assistência de direção), não tenho distanciamento crítico. E crítica sem distanciamento crítico não dá!

Próximo: Monstro?, de Alexandre Araújo. Disparado, o pior da sessão. Aquele menino que fazia propaganda da Sadia depois de adulto, pagando de adolescente revoltado na escola. No fim, faz um discurso metalingüístico olhando para a câmera sobre a necessidade do vilão. O filme inteiro se apóia num rock furioso e cansativo, adequado ao filme, diga-se. Até tem uma (ou outra, dirão algunsa) passagem engraçada, mas num registro tão pueril, adolescente revoltado, que mesmo sendo bem curto, não desce.

Cânone para 3 mulheres é uma animação formalmente muito rigorosa, com casamento perfeito entre música e imagem, desenhos em 3D belíssimos, cores soberbamente escolhidas, um trabalho gráfico primoroso e crítica social. Acho que o roteiro dá uma derrapadinha no fim, quando a recompensa das deliciosas mulheres exploradas é dormir com os gordos homens exploradores. Mas vale pelo trabalho formal!

Fala Mansa está classificado como videoarte, mas é um pouco menos definível do que isso, em minha opinião. Não conheço o trabalho de Ricardo von Steen, mas o nome é bem famoso na região do Espaço Unibanco e adjacências. Baseado num fato acontecido com o diretor, o filme é de uma simplicidade desafiadora. Numa gostosa casa de classe média alta, um cara fala no telefone. A campainha toca, entra um investigador, falando mansamente que o protagonista seria intimado por conta de um pequeno acidente automobilístico e tal. O investigador começa a conversar, pergunta se o protagonista é artista e, depois da confirmação (ou meia confirmação), fala que seu filho de 14 anos quer ser modelo e pede umas dicas e tal. Fica tentando puxar papo, dizendo que toca na noite, vai entrando pela casa, olhando as fotos, conversa com a empregada, sempre com sua fala mansa. O protagonista consegue fazê-lo sair e volta o telefone. A campainha toca, ele vai atender e a cena se repete com ligeiras alterações de diálogo, até que o protagonista volte ao telefone e vá pela última vez atender a campainha – quando o filme termina, para alívio dos espectadores, receosos de ver pela 3a vez a esquisita cena. Ah, sim: tudo num plano só! Impressiona muito o trabalho de fotografia. Quando o protagonista vai lá para fora e inicia o diálogo com o policial, o diafragma continua regulado para a baixa luz de dentro, deixando a imagem toda estourada. Além disso, provavelmente na finalização, adiciona-se efeitos acho que de solarização e talvez algum outro, o que deixa a imagem bem irreal, parecendo pintada. Curta-metragem esquisitíssimo. Muito bom!

Espalhadas pelo Ar, TCC ecano de Vera Egito (que um dia foi minha bixete, ou ainda é) chegou muito recomendado pelo sucesso no festival de Brasília. O filme mostra o surgimento de uma amizade entre uma moça de olhos espetacularmente belos com o casamento em crise e uma adolescente com suas primeiras questões amorosas. A cumplicidade começa com cigarros escondidos dos pais da segunda e disfarçados do marido da primeira. O roteiro, escrito pela diretora e por Carolina Ziskind (que um dia, numa conversa sobre miopia num avião entre Salvador e Guarulhos, me inspirou um conto), tem sutilezas femininas que normalmente chegariam perto de aborrecer a insensibilidade incompreensiva masculina, mas é tão bem conduzido, tão “natural”, que acaba pegando mesmo os machões. As atrizes estão muito bem, os poucos atores se destacam menos, mas também mandam bem. A fotografia puxada para o dourado é quase uma covardia (daquelas que fazem um monte de gente gostar de filminhos meia-boca como Abril Despedaçado). Mas o que me impressionou mesmo foi a relação entre decupagem e montagem. Fui até dar parabéns para a montadora, Fabiana o que mesmo?... Os movimentos de câmera nas escadas circulres onde se passa grande parte do filme são muito bons e os cortes só ajudam. As relações de olhares pela janela ou diretos, além dos diálogos precisos, dão o tom do curta (e o que é mais cinematográfico do que o olhar?). O filme flui. Não parece primeiro filme de ninguém, apesar de o fato ter sido ressaltado pela diretora na apresentação. Parabéns à equipe!

O melhor, para mim, ainda estava por vir. Trópico das Cabras, grande vencedor de Brasília, é um curta feito num esquema profissional, o que o distingue da maior parte da sessão. Um casal em crise resolve viajar pelo Brasil para “recuperar aquele amor de outrora ou perdê-lo para sempre”. A fotografia e a montagem são primorosas. A ausência de desejo entre o casal vai sendo substituída por trepadas extra-conjugais consentidas em hoteizinhos xexelentos, algumas observadas pelo marido. Discuti depois do filme sobre o roteiro com um cara que não conheço (vou até tentar contatá-lo). Sua posição é de que não havia motivação nos personagens, o que comporometeria o filme como um todo. Eu discordei, justificando haver pouco rigor de minha parte com roteiros, o que não é exato. O cara se perguntava por que o personagem aceitava aquela situação, se em nenhum momento os espectadores tinham sido avisados sobre seu voyeurismo. Para mim, a idéia do filme, reiterada em todo o roteiro, desde a proposta explicitada pelo personagem masculino em sua narração over em espanhol, é a de deixar acontecer o que tiver que acontecer. Ele decidir ver a mulher dele transando com outro sujeito é uma coisa nova, surgida num instante. É uma postura, sei lá, fenomenológica, ou existencialista (filósofos de plantão, por favor, me ajudem!) e que, na minha visão, têm muito mais relação com a vida real do que essa neurose de roteiristas, de perguntas e respostas, esquemas, motivações. O filme tem planos que valem muito mais do que qualquer roteiro clássico (tirando os do Billy Wilder, vá). Em que ele seria melhor se o persongem abrisse o filme folheando uma Playboy? Para mim, em nada. A vida, pelo menos a minha, é uma sucessão de eventos que não necessariamente se encadeiam como perguntas e respostas. Por que Patricia Franchini delata Michel Poicard em Acossado? Existe algum filme melhor na história do cinema? Eu não conheço. Não estou alçando Trópico das Cabras a tal patamar, longe disso. Mas é um filmaço!


Escrito por Tiago Marconi às 15h51
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