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Escutas por toda a casa
Espionagens e arapongagens são uma recorrência no cinema, pelas próprias possibilidades da linguagem – a deusa montagem paralela nos acena de seu altar de instrumentos disponíveis para a narrativa cinematográfica. Explico: enquanto nosso personagem A faz qualquer coisa, corte para o araponga escutando, todo mundo entende que araponga está escutando o personagem A. Não é tão fácil isso ficar bom em nenhuma outra arte. E, ao fim e ao cabo, espionar é o que fazemos no cinema, como deixou bem claro o grande mestre Hitchcock (para mais informações, procurem os textos do Ismail Xavier a respeito, por exemplo, no livro O olhar e a cena).
A vida dos outros (Florian Henckel von Donnersmark, Alemanha, 2006), baseado em fatos reais, coloca um araponga para vigiar um escritor de teatro até então tolerado pelo regime da Alemanha Oriental, não por qualquer motivo de estado, mas porque o ministro da cultura está interessadíssimo em sua esposa.
O capitão Wiesler, designado para a missão, é apresentado como um frio e objetivo homem da Stasi (o serviço de inteligência da RDA), que acredita nos ideais socialistas e não engole muito bem a idéia de espionar em nome de interesses privados. Ao longo do filme, solidário contra a injustiça que se quer cometer com Georg Dreyman, ele começa a intervir na vida dos espionados e sonegar informações comprometedoras no relatório. A pressão vai aumentando e desenlace é batante dramático. No fim, após a queda do muro, Georg resolve entender o que aconteceu – e aí temos a grande cena em que ele pede para ver seu arquivo da Stasi e esse é trazido num carrinho – escreve a história e dedica ao Araponga de bom coração.
O tema é a decadência política e moral do regime, com maior ênfase no segundo. Bastante atraente, pela possibilidade de ver na tela a burocracia, a estratificação, a barbárie e a paisagem fria da Alemanha Oriental.
É impossível não se lembrar de Adeus, Lênin (Wolfgang Becker, Alemanha, 2003), ambientado na mesma RDA decadente mas mais irônico em relação ao capitalismo. A vida dos outros é um filme dramático, sério, país em crise, artistas em crise, araponga em crise. Nada visto pelos olhos pós-adolescentes do protagonista de Adeus, Lênin. Até tem momentos de humor, em especial com o sargento subordinado a Wiesler e seus comentários um tanto grosseiros., mas não tem uma visão ambígua de fundo, pronta para criticar tanto a RDA totalitária quanto o “ocidente” capitalista, cheio de luzes e cartazes publicitários que desviam a atenção de seu caráter brutal. Eu nem sou grande fã do filme de Wolfgang Becker, por ser um filme todo certinho, caretinha, embora bem feito e bem intencionado. Confesso, no entanto, que na comparação, essa ironia ausente no filme de Henckel chamou a atenção.
A vida dos outros também é um filme certinho, sem grandes ousadias, e algumas vezes exagera na música para segurar o tom dramático. As atuações me agradaram. Provavelmente terei esquecido do filme no fim do ano, mas não acho que tenha perdido meu tempo nem meu dinheiro.
Escrito por Tiago Marconi às 21h03
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