Depois do Filme


Paranoid Park

Estava a ponto de iniciar o post comentando ter visto de Gus Van Sant apenas o excelente Elefante (2003), mas resolvi checar o currículo do cara no IMDb (referência imprescindível para meus fiéis e silenciosos leitores) e descobri algumas coisas interessantes. O primeiro filme que vi dele é Drugstore Cowboy, numa insone madrugada adolescente (deve ter uns bons 9 anos) em frente à TV a cabo, do qual nunca esqueci. Matt Dillon fenomenal e um clima de barbitúricos, soníferos, anti-depressivos e tudo o que se podia encontrar para viajar numa farmácia no fim dos anos 80. Descobri que Van Sant encarou a bucha de dirigir o remake de Psicose (1998), do qual vi alguns minutos com certo desprezo, inclusive pela seqüência do chuveiro, que é decupada igual à original – se não me falha a memória.

Elefante chegou a São Paulo mais ou menos no mesmo momento em que Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002), tratando com tons bastante distintos (o primeiro calmo e observador, o segundo histérico e acusativo) a chacina promovida por alunos de uma escola pública numa cidadezinha no estadinho do Colorado, EUA. Claro que o filme de Moore vai além do massacre, mas não deixa de haver dois olhares sobre um mesmo tema, o que é sempre interessante. Acima de tudo, dos steadycams fluidos na paisagem neblinosa, da interpretação quase minimalista dos atores, me encantou, em Elefante, o silêncio, a recusa a pirotecnias, os sons de tiro parecendo sons de tiro mesmo. A realização estética bem resolvida de uma proposta ética louvável. Enfim, é um filmaço.

Ao saber que o protagonista de Paranoid Park era um skatista, me senti na obrigação de ver. Há tempos presto atenção no som das rodinhas das pranchas sobre o asfalto de São Paulo e penso “que objeto cinematográfico!, esse ruído associado a um deslocamento precário, desafiador e muitas vezes bonito num espaço complexo como uma cidade”. Isso somado à minha boa impressão do som do outro filme trouxeram Paranoid Park para o topo dos “filmes a ver” em cartaz.

A história é narrada sem linearidade, seguindo os escritos do protagonista. Alex, um garoto de classe média, 16 ou 17 anos, skatista, enfrentando um divórcio complicado dos pais, se sente atraído por um mundo diferente de seu cotidiano escola/namorada/patins de gelo/piscina: o Paranoid Park. O lugar é uma enorme pista de skate construída e freqüentada pelo lumpesinato de Portland. Um dia, sozinho lá, cohece uma galera e acaba se envolvendo numa história barra pesada. Vou evitar contar mais, em homenagem a quem planejar ver.

O que impressiona em Van Sant desde Elefante é a capacidade entrar no mundo mental dos personagens sem os esquematismos psicológicos fáceis que dão as cartas nos roteiros hollywoodianos há tantas e tantas décadas. Ele leva a câmera até a cara do cidadão, fica lá um tempão, depois a deixa fluir um pouco, mostrando o ambiente. Em Elefante, o tempo todo em silêncio. Aqui ele ousa mais e tasca umas musiquinhas com sonoridade de clichê de filme de adolescente americano em alguns momentos e ousa ainda mais em outros, colocando músicas velhas conhecidas de todo cinéfilo (e não só dos cinéfilos): Nino Rota (Amarcord, Giulietta dos Espíritos, acho até que ouvi A Estrada). Não lembro com precisão quando o som do filme vira Fellini, isso talvez explique mais sobre ele. Outro ponto importante na estrutura do filme é o uso de imagens (em vídeo, creio) documentais sobre a “turma do skate” da escola, com a molecada deslizando e alçando vôo pelo asfalto e pela pista. Essas imagens compõem a subjetividade do protagonista – em determinado momento é sua imaginação, em outros, uma ilustração documental do mundo de que ele faz parte. Esse tipo de ilustração aparece também em película, ao som da narração/escrita de Alex.

Sem o apelo emocional do fait-divers universal de Elefante, Gus Vant Sant nos traz, de novo, uma história brutal contada com muita delicadeza e respeito ao protagonista. Querendo entender e não explicar. Bom filme!


Em tempo: o som de skate ainda merece uma abordagem cinematográfica mais apaixonada!

Escrito por Tiago Marconi às 15h22
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