Depois do Filme


Roda Viva com Fernando Meirelles

Fazia tempo que eu não falava de cinema. E não é exatamente de cinema que vou falar...

Ontem, em cima da hora, descobri que Fernando Meirelles seria o entrevistado do Roda Viva, que cada vez mais (pode ser impressão minha) costuma receber gente chata para falar de assuntos chatos.

Fernando Meirelles é uma figura polêmica. Depois de trabalhos inovadores com vídeo, muito boa televisão (eu adorava Rá Tim Bum), possivelmente a melhor carreira do cinema publicitário brasileiro e 2 filmes sem muito destaque, surgiu com o furacão Cidade de Deus, maior evento do cinema nacional pelo menos desde Central do Brasil. Tenho a impressão de que um evento maior do que Central do Brasil. Afora a carreira brilhante do filme ao redor do mundo, suficiente para torná-lo um cult internacional, quem não se lembra?, o filme foi assunto obrigatório em tudo que é suplemento cultural e rodinha de cineastas e cinéfilos.

Havia basicamente duas posições: de um lado estava quem gostou do filme, por sua evidente qualidade técnica, e o elegeu como O exemplo a ser seguido pela cinematografia brasileira, "que até então não valia nada". De outro, os suspeitos de sempre, que fazem questão de pensar politicamente um filme que trata da guerra urbana carioca (se não é um tema político, o que o será?) - grupo em que se destacou a figura da crítica Ivana Bentes, que cunhou o termo "cosmética da fome" sem conseguir colocá-lo de pé em termos teóricos. Faço parte do segundo grupo e não arredo o pé, mas é preciso refletir um pouco.

Embora eu concorde que a linguagem publicitária do filme não seja a forma mais interessante de se tratar a tragédia social brasileira, sempre achei o filme excepcional enquanto realização. Essa opinião se estende ao diretor e se fortaleceu ontem. Fernando Meirelles não me leva ao cinema e eu desconfio bastante da sofisticação estética de alguém que afirmou que dormia durante os filmes de Gláuber Rocha, "achava chato". Enfim, tenho uma discordância política e estética inconciliável com o sujeito. Por outro lado, o cara é um grande realizador, um colega de profissão competentíssimo e que, goste eu ou não, merece o destaque que tem. Ponha Cidade de Deus de um lado da balança e 85% da obra de Cacá Diegues do outro... Ela pende para o lado do paulista. Pode pôr junto com a do Diegues a de Zelito Viana e a de Paulo Thiago... Mexeu alguma coisa?

O fato é que Fernando Meirelles é um fenômeno novo no cinema brasileiro. Alguém que ocupa espaço por sua competência e não por suas influências. E aí está sua maior importância.

Voltando ao Roda Viva: foi constrangedor. Liguei a TV pronto para ficar com raiva do Fernando Meirelles e ele, sem dúvida, foi quem menos me irritou. Foi um festival de bajulação. A Mona Dorf por pouco não pulou a bancada e deu um beijo no diretor, além de soltar a infâmia de que Cidade de Deus quebrou um paradigma da literatura, do teatro e - vejam só!!! - do cinema brasileiros, por retratar uma favela! Mano, alguém que sequer ouviu falar em Rio, 40 graus não pode entrevistar nem a mim para o jornal interno do sindicato dos desempregados, que dirá a um cineasta internacional para um programa exibido em todo o país, que existe há décadas e tem uma reputação a zelar... E o mais impressionante é que ninguém falou nada. A mulher resolve que Cidade de Deus foi quem levou a câmera para a favela e isso vira verdade.

Luís Carlos Merten, o crítico puxa-saco por excelência (se alguém tiver crítica dele falando mal de algum filme de diretor brasileiro vivo, eu quero!), foi quem fez a pergunta cinematograficamente mais séria do programa, mas num tom de deboche. Citando o debate no Espaço Unibanco onde surgiu o termo "cosmética da fome", perguntou a Meirelles se "hoje ele dá risada disso". Que raio de jornalismo é esse? O filme do cara foi o que foi dentro do país, em termos de evento, justamente por conta dessa polêmica, coisa que o cineasta parece entender, pela sobriedade de sua resposta: "eu evidentemente discordo (...) nesse debate alguém falou que em 4 meses o filme seria esquecido e não foi, então alguma coisa tem ali".

Fiquei extremamente desapontado pela incompetência dos entrevistadores, eu juro que queria desligar a TV com raiva do Meirelles e ele foi a melhor figura da entrevista. Fica aqui meu apelo à TV Cultura: na próxima entrevista com cineasta, chamem o pessoal da Contracampo, da Cinética, José Carlos Avellar, o Jean-Claude Bernardet, o Ismail Xavier, o Rubens Machado, outro cineasta, o Inácio Araújo que seja! E, por favor, nada de Mona Dorf...



Escrito por Tiago Marconi às 16h33
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Escrito por Tiago Marconi às 13h23
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