Marginaaaaal
Estreei minha devoção no Ramadã da cinefilia paulistana ante-ontem, em grande estilo.
Com a cabeça girando por questões que não vêm ao caso e um humorzinho terrível, resolvi que era hora de gastar CATORZE REAIS e ir ver algo da Mostra. O filme? A Canção de Baal, dirigido pela histórica Helena Ignez, que merece um prolongamento no preâmbulo...
Para quem não sabe, Helena Ignez, filha da aristocracia baiana, foi mulher dos dois maiores cineastas brasileiros de todos os tempos, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla (sorry, Ruy Guerra, mas você não nasceu aqui...) e diz-se por aí (acho que foi Glauber) que ela era o que havia em comum entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal - movimentos que podem ser personalizados justamente por esses dois diretores. E foi em parceria com o marginal Sganzerla que a jovem e bela loura brilhou com mais intensidade, em vários filmes, dos quais destaco A Mulher de Todos (1969), em que ela interpreta a sensacional Angela Carne e Osso - a inimiga número 1 dos homens. Quem não viu, veja!
Pois bem, a sessão, aquela coisa... Demorou meia hora para Helena começar a falar... O filme começa com o áudio do depoimento de Bertolt Brecht à Comissão de Atividades Anti-Americanas. Corte. No meio do nada, um nada bucólico, executando um piano, Baal (interpretado por Carlos Careqa) canta com voz rouca de bêbado e cabelos desgrenhados, coisa que fará durante o filme todo, por vezes com um violão cheio de adesivos, por vezes sem nada, no palco de um cabaré. É um personagem grotescamente machista, bem ao estilo do cinema marginal, que ao longo do filme vai pegando e descartando (e destruindo) belas mulheres, Beth Goulart (eu gosto, ta?), Djin Sganzerla, Simone Spoladore... Aliás, não sei se por ter sido uma musa, o fato é que a senhora Ignez (com seu fotógrafo) filma a figura feminina lindamente. Baal é uma figura destrutiva, destrói a si mesmo e a tudo o que de bom eventualmente o cerca (representado justamente por essas figuras femininas branquinhas e belas, uma chave beeem romântica), enche a cara o tempo todo e canta espetaculares canções, prenhes de desdém e muito espirituosas e engraçadas.
A montagem é excelente e alguns planos valem 14 reais. A fotografia é estranha (não sei se foi feito todo em vídeo, mas na hora parecia que não tinham renderizado alguns trechos, estranho... experimental demais talvez... ou eu ando careta mesmo), mas bonita. As atuações me deixam em dúvida. Não sei se são irregulares ou se se, por exemplo, Djin Sganzerla está propositalmente artificial... Ela e o cara que interpreta Johann me incomodaram um pouco. Carlos Careqa dá show! E a turma em geral está bem. O filme tem momentos de humor escroto e grotesco que realmente me agradam, eu diria até, me comovem... E, acima de tudo, o filme ousa! Acho que vai demorar para entrar em cartaz e vai sair rapidinho. Mas estou seguro de que, no túmulo, ou no céu dos marginais (inferno?), Rogério Sganzerla sorri satisfeito.
Para quem gosta de cinema e não faz questão de peripécias narrativas.
Obrigado, Helena!
Escrito por Tiago Marconi às 11h09
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